20 Janeiro, 2012

Politicamente na moda

Certa vez, estive num debate sobre direitos e lá estavam representantes de secretarias, doutores universitários e ativistas de movimentos sociais. Em determinado momento, em meio a muitas frases de efeito e termos "politicamente corretos", um cadeirante pede a palavra e faz um comentário que me deixou pensativo. Enquanto os "especialistas" se esmeravam em afirmar que os direitos dos "Portadores de Necessidades Especiais" deveriam ser respeitados, o cadeirante fez uma pergunta: por que me chamam de portador? - Eu tenho uma deficiência, se eu fosse apenas portador, deixaria ela com voces e iria embora sem ela.
Outra situação é chamar uma comunidade indígena de "tribo", quando eles próprios reivindicam o termo povo em virtude da sua cultura e organização social.
Isso me fez pensar sobre termos que me disseram que deveriam ser usados para designar grupos sociais, situações ou condições e decidi escutar as pessoas que vivem essas adversidades em vez de pronunciar os termos "politicamente na moda".
Um desses termos é a famigerada "homofobia". Se FOBIA significa medo ou repugnância (algo que precisa ser tratado), por que vemos esse termo associado a atos de violência contra homossexuais?
O ódio e a intolerância praticados pelos que não respeitam as diferenças, para mim, está longe do sentimento de medo. Ou seja, eles não agridem porque têm medo e sim pelo ódio e a ideia de que as pessoas que pensam e/ou se comportam diferente não têm direitos. Portanto, não devemos encarar esses agressores como alguém que precisa de tratamento, mas sim de punição. Os que ainda não desenvolveram a agressividade, mas pensam que os diferentes não merecem respeito, precisam se cuidar para reverter esse sentimento, pois ele pode chegar ao extremo e aí vem a violência.
Diante disso e sem entrar no debate sobre o termo "politicamente na moda", precisamos é respeitar as diferenças, escutar os que são discriminados (sem criar rótulos) e combater todo tipo de intolerância e violência.

11 Novembro, 2011

A copa, o tráfico e o mundo da fantasia

Um ministro de esporte demitido, um traficante muito procurado no Rio, uma ocupação programada, um jornalista morto e uma apresentação sobre segurança da copa do mundo na Alemanha. O que tudo isso tem em comum?
Aparentemente, são apenas notícias.
Mas, na terra da fantasia midiática tudo pode ser especulado.
Vejamos os fatos:
1. a acusação de corrupção(ainda não comprovada) contra o ministro Orlando, feita pelo amigo do governador do DF foi suficiente para um bombardeio sem tréguas da imprensa e a consequente demissão do ministro. Esse é um fato normal, segundo a mídia.
2. um jornalista foi morto, fazendo mais uma cobertura sensacionalista (a mando da redação, óbvio), agindo imprudentemente e usando equipamento que não lhe garantiu sua vida (segundo a própria imprensa). Um fato ruim.
3. Diferentemente da ocupação do complexo do alemão, que foi feita sob o maior sigilo, a Rocinha que além de ser a maior "favela" tinha o traficante mais procurado do Rio, mereceu anúncio antecipado. O traficante fez uma festa na noite anterior e desceu o morro no dia programado para a ocupação. Resultado: crime desorganizado sem que um só tiro fosse dado.
4. Enquanto isso o secretário de segurança do Rio apresentava o plano de segurança da copa. Não poderia ter anúncio melhor para ser dado nessa reunião, que a prisão desse traficante e de seus comparsas.
Tudo isso seria extremamente natural se não fosse justo no Rio. Com todo respeito ao povo carioca, mas o histórico do dito crime organizado e da corrupção policial não condiz com esse enredo. O mais procurado do Rio ofereceu apenas R$ 30 mil para ser liberado, seu "braço direito" foi preso em outro ponto, também sem resistência.
Pode ser alucinação, mas eu estou com a impressão que nesse enredo faltam detalhes.
Por que a mala do carro que trazia o traficante só foi aberta na Lagoa Rodrigo de Freitas? Quem dirigiu o carro, do ponto de abordagem na saída da "favela" até a Lagoa? Os suspeitos ou os PM's? Não existia nenhum inimigo do conhecido traficante querendo(usando as gírias próprias) "apagá-lo"? Portanto, eu pergunto mais uma: foi prisão ou escolta?
Mais a melhor é: por que, justo no dia da apresentação do Beltrame na Alemanha?
Essa história é quase tão bonita quanto a de Alice quando caiu na toca do coelho.

22 Julho, 2011

Para além do maniqueísmo midiático e partidário (final)

Para Marx, o capitalismo destrói o futuro à medida que suga toda riqueza natural e a força de trabalho, “[...] pela exploração, aberta, cínica e brutal” (MARX, 2002, p. 28). Portanto, o crescimento do capitalismo gera a miséria do proletariado. Os marxistas mais atentos não são defensores incondicionais do progresso do sistema, pois as crises de superprodução se dão devido a “civilização em excesso, meios de subsistência em excesso, indústria em excesso, comércio em excesso” (MARX, 2002, p. 34). E como sabemos quem paga a conta dessas crises é a classe obreira.

Em nome do progresso e do crescimento os recursos naturais foram sendo solapados pelo capital, os exemplos dados pelas grandes potências vão na contra-mão do futuro e ameaçam as novas gerações. Isso se aplica, tanto para os que defendem a preservação visando a exploração da sua biodiversidade, quanto para os que apostam num país celeiro do mundo. Mesmo diante de tanta produção de alimentos a fome continua sendo um espectro que ronda o Brasil e o mundo. E por que isso ocorre? Primeiro, porque as áreas agricultáveis são usadas no plantation e o outro motivo é o caráter excludente do capitalismo.

Fazer a discussão no extremo das posições, tal como a imprensa quer, levando as forças partidárias ao acirramento não contribui para a solução dos impasses. Ou seja, se é verdade que o Brasil precisa desenvolver suas potencialidades atuais também deve preservar ao máximo as condições naturais para o futuro. O desmatamento acentuado nas margens dos rios compromete as fontes hídricas, recurso vital à humanidade. Isso é incontestável.

Independente da votação do código o debate sobre o tema deve perpassar as preocupações dos círculos de discussão entre os brasileiros, sem o maniqueísmo do bem e do mal. Não existe só ambientalista alinhado aos interesses antinacionais e nem apenas latifundiários descompromissados com o futuro interessados nessa discussão. As pessoas podem e devem opinar sobre o que acreditam ser o melhor caminho para o nosso país, pensando sempre na maioria da população hoje e amanhã.

21 Julho, 2011

Para além do maniqueísmo midiático e partidário (parte I)

Nas discussões recentes sobre o código florestal brasileiro o que mais se viu foi troca de acusações sobre quem está certo ou errado. Colocando-se de um lado os ambientalistas apaixonados e irracionais; de outro, os ruralistas desmatadores impiedosos.

Visto de outra forma, também poderia ser: os ambientalistas a serviço da indústria fina e farmacêutica internacional, fazendo de tudo para impedir que o Brasil domine grandes tecnologias e explore suas potencialidades agrícolas no momento atual. Afinal, o país hoje é um grande exportador e está sabendo aproveitar suas novas relações internacionais iniciadas sob o exitoso governo Lula. As mudanças no código, portanto, beneficia um enorme contingente de médios e pequenos produtores, sem excluir os grandes, é claro. Pois à medida que ele flexibiliza fronteiras, possibilita uma maior produtividade.

Nos últimos anos o Brasil honrou seus compromissos internacionais, abriu novas rotas de comércio, elevou o PIB, distribuiu mais sua renda e tornou-se respeitado no mundo. Longe, da submissão diplomática e comercial, típicas do período FHC, o país vai se firmando como nação verdadeiramente soberana. Internamente, estamos nos livrando de algumas dívidas sociais e debatendo outras. As desigualdades regionais continuam, mas foram dados passos no sentido de fortalecer as economias mais frágeis, vilipendiadas durante séculos para manutenção das elites centrais. A massa salarial, a partir do mínimo, vem aumentando. Tudo isso é inegável, mas não justifica o maniqueísmo presente nas discussões sobre o código florestal.

Se tomarmos a história como referência – o que nesse caso é imperativo – veremos que todos os grandes ciclos de crescimento foram sucedidos de depressões, com aprofundamento das contradições sociais. Isso se dá porque nos sistemas de exploração, como é o nosso, o fruto do crescimento é distribuído incorretamente. O capitalismo tem como marca principal a exclusão econômica. Portanto, ter a ilusão de que o crescimento econômico vivido nos marcos do regime é garantia de desenvolvimento humano é negar a essência do mesmo. Tais entendimentos são necessários para discutir a questão ambiental sem paixões.

É verdade que há muito as empresas estrangeiras financiam “ecologistas”, “missionários”, “pesquisadores” e Organizações Não Governamentais (ONG) de toda espécie para explorar riquezas naturais em diversos países. Assim como também é verdade que a biopirataria se traveste de defensora da natureza. Todavia, precisamos distinguir os falsários daqueles que realmente estão preocupados com um futuro sustentável. Não dá para colocar na mesma bacia ONG’s vendidas e cientistas brasileiros sérios. Entretanto, também não devemos impedir que os pequenos agricultores sejam beneficiados com ações do Estado por conta das malversações dos latifundiários sócios do poder.

03 Janeiro, 2011

Desejos

Desejo a você
Fruto do mato
Cheiro de jardim
Namoro no portão
Domingo sem chuva
Segunda sem mau humor
Sábado com seu amor
Filme do Carlitos
Chope com amigos
Crônica de Rubem Braga
Viver sem inimigos
Filme antigo na TV
Ter uma pessoa especial
E que ela goste de você
Música de Tom com letra de Chico
Frango caipira em pensão do interior
Ouvir uma palavra amável
Ter uma surpresa agradável
Ver a Banda passar
Noite de lua Cheia
Rever uma velha amizade
Ter fé em Deus
Não Ter que ouvir a palavra não
Nem nunca, nem jamais e adeus.
Rir como criança
Ouvir canto de passarinho
Sarar de resfriado
Escrever um poema de Amor
Que nunca será rasgado
Formar um par ideal
Tomar banho de cachoeira
Pegar um bronzeado legal
Aprender um nova canção
Esperar alguém na estação
Queijo com goiabada
Pôr-do-Sol na roça
Uma festa
Um violão
Uma seresta
Recordar um amor antigo
Ter um ombro sempre amigo
Bater palmas de alegria
Uma tarde amena
Calçar um velho chinelo
Sentar numa velha poltrona
Tocar violão para alguém
Ouvir a chuva no telhado
Vinho branco
Bolero de Ravel
E muito carinho meu.

09 Dezembro, 2010

Adolescência perdida

O resultado da pesquisa organizada pela Unicef, sobre adolescentes vítimas fatais da violência, revela que existe um longo caminho a ser percorrido para que nossa juventude tenha um futuro melhor.
É importante dizer que a campanha subliminar da Rede Globo, em programação do horário nobre para redução da imputabilidade de menores, não precisa mais ser veiculada, pois os jovens menores de 18 anos já estão pagando, inclusive com a vida, infelizmente, o seu envolvimento com o ilícito.
Foz de Iguaçu/PR é o município recordista em homicídios contra adolescntes com idade entre 12 e 18 anos (11,75 por grupo de mil habitantes). Porém, Pernambuco não ficou distante.
Segunda a pesquisa, Olinda e Recife são as 3ª e 4ª colocadas, respectivamente, nesse quisito.
O problema é que o fato é encarado como caso de polícia e não como questão social. O governo do estado, por exemplo, manda para dar entrevista, técnicos da SDS, demonstrando a visão sobre o assunto. E a delegada fala (ao vivo) que a situação de pobreza não é condicionante para o envolvimento na criminalidade (entrevista no Bom Dia PE - 09/12/2010). Em que planeta ela está? Não precisa ser expert em segurança ou em desenvolvimento social para perceber pelos quatro cantos das cidades a condição em que muitos jovens sobrevivem. Se essa condição não os leva ao crime, o que será?
A colocação nacional das cidades pernambucanas é preocupante e põe à nu a realidade vivida pelos jovens daqui. Remete a necessidade de implementação de políticas públicas urgentes e permanentes para esse segmento da sociedade. Antes que seja muito tarde!

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13 Outubro, 2010

1939 e 1968 precisam terminar!

Um retorno ao terror e às perseguições ideológicas, marcam essa campanha presidencial.
Os ereges, os subversivos e os comunistas "devoradores de fígado de criancinhas", precisam ser eliminados - diziam os golpistas sob o comando de Médice no fim da década de 1960. Pois bem, esses tempos voltaram.
O aborto ou a aceitação da pena de morte tem algo em comum? Não! A não ser pelo fato de discutir genericamente o direito a vida. A hipocrisia faz com que, os que condenam o primeiro aplaudam o segundo. Aos religiosos e fervorosos a que se perguntar: não seria mérito de DEUS tirar ou colocar a vida na terra? Por que, então, posição dúbia nos dois fatos? Resposta: a hipocrisia não permite uma mesma postura.
A lei brasileira, já prevê em que situações a interrupção de gestação pode ser procedida: quando coloca em risco a vida de mãe e filho; quando acontece estupro e violência sexual contra menores, etc. Por que se está discutindo finalmente a adoção de leis sobre o assunto?
O caso da menina pernambucana de nove anos de idade, que engravidou depois de vários atos de violência contra seu corpo, praticados por um monstro que convivia com ela, é emblemático. Lembram, a posição do então arcebispo de Olinda e Recife? Não excumungou o estuprador, mas a mãe que permitiu e o médico que fez o procedimento, sim. Quem deveria ir para o inferno? D. José mandaria as pessoas erradas.
Há 21 anos o Brasil de Ronaldo Caiado, representante dos latifundiários na corrida presidencial da época teve, com Luiz Inácio Lula da Silva, postura semelhante aos boatos sobre a distribuição de terra - nesse caso a excomunhão deveria ser do país. Muita gente que se escondia na sua hipocrisia, votou em Collor no segundo turno e o resultado já sabemos.
O Brasil parece ter evoluído em aspectos econômicos, mas definitivamente continua alguns séculos atrás nos valores morais sobre o direito a vida.
Os clérigos e pastores sérios devem se posicionar pela defesa da vida sem apelar para a discriminação contra as milhares de mães que não têm como sustentar seus filhos ou são vítimas de violência. Os chefes religiosos que querem tirar proveito de um tema tão sério são corruptores de valores e provavelmente vivem comentendo adultérios nos intervalos dos cultos ou pedofilia em sacristias.
D. José deve está feliz em ver que sua hipocrisia reina no debate presidencial. Os "dilmistas" estão tentando retribuir os ataques tucanos com o mesmo veneno - mostrar que são eles que defendem o aborto e não a Dilma. Tornam-se hipócritas, tanto quanto.
Os defensores do regime militar estão revivendo os anos dourados em que mulher usar pílula era eresia e defender liberdade de expressão e democracia eram coisas de "comunista endemoniado".
O debate que está em curso faz parte de um conjunto de ideologias que discriminam e segregam pessoas. Hitler, soube muito bem aproveitar tais preconceitos e intolerância iniciando uma perseguição cruel, com o consequente extermínio de milhões de seres humanos.
O preço pago pelo retorno a idade média será o retrocesso político e econômico, mas o pior é que será, também, um retrocesso cultural e abrirá caminho para campanhas fascistas, que poderão ter consequencias irremediáveis.
1939 (início da segunda guerra e perseguição aos judeus) e 1968 (início dos anos de chumbo) precisam ficar para trás, sob pena de não mais reencontrarmo-nos enquanto nação democrática.
Não é suficiente a bestialidade dos skinheads que perseguem nordestinos? Daremos o aval a criação de milícias caçadoras de bruxas do século 21?
A favor da vida e da liberdade, pois o país é constitucionalmente laico e democrático.

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